O Banco de Jardim
Era um dia completamente normal, do mais ordinário que existe, na realidade era até um pouco suspeito. Apesar do aparente decorrer rotineiro da vida, havia sempre um acontecimento inusitado. Mas hoje não. A Dona Manuela levava as suas compras na mão, enquanto gritava com o pequeno Luís para não atravessar a passadeira. A Sara finalmente decidira comprar a pulseira azul que tanto admirara neste último ano, (era até de espantar que ainda estivesse à venda, dizem os boatos que é porque o ourives tem um fraquinho por ela). O Rui tirava fotografias às flores, que apenas agora floriam, sorrindo enigmaticamente para a sua câmara. Apesar de não ter nada contra o rapaz, ele por vezes assusta-me. Nada de novo para mim, passavam uns, ficavam outros, era tudo um rebuliço perfeitamente orquestrado, uma sinfonia moderna, onde os "lás" eram as calúnias proferidas pelos traseuntes, e onde os "dós" eram as buzinas dos carros que passavam na pequena estrada.
Finalmente, decidi abandonar a minha dedicação àquele pequeno pedaço de humanidade, mas, enquanto me virava, deparei-me com ele. O que seria? Ou melhor para que seria? Um banco de jardim?! No meio dos canteiros da Dona Lurdes?! Pintado de vermelho?!
Era o objeto mais revoltante que eu ja vira! Fazia crescer dentro de mim um sorriso, mas eu não queria sorrir. Esta felicidade forçada era sufocante, como se me tirassem o direito de puder estar emburrada e revoltada com o mundo. Não gostava do banco. Tornei-me a sua arqui-inimiga no segundo em que o vi, este protesto de felicidade e inconsciência no meio da praça era algo que eu não podia suportar. Ocorria-me agora a quantidade de pessoas se iriam sentar ali e cuscar acerca da vida dos outros, ou rir-se das maiores incoerências do universo, não suportava, a revolta crescia dentro de mim, e finalmente o meu consciente estava preparado, para a batalha que seria odiar com cada célula no meu ser aquele banco.
Todos os dias eu passava, e todos os dias eu olhava com desprezo para o objeto infernal, sempre vazio, mas com um certo escárnio na sua forma, eu encarava-o e ele encarava-me, como se ambos soubéssemos que só um de nós poderia ficar, e ele já sentia a sua vitória. Ao fim de algum tempo, o ódio e o rancor pelo o objeto assentou dentro de mim, apesar de estar ainda presente, aprendera a moderá-lo da melhor forma que conhecia. Até que aconteceu, ao fim de algumas semanas, vi pela primeira vez alguém sentado no maldito banco. Um casal de idosos dava as mãos despreocupadamente. Ela divagava sobre uma colega sua que finalmente tocara a sua reforma francesa. Ele não ouvia, estava preso e encurralado nos seus pensamentos, mas mantinha um sorriso caloroso na sua cara. Havia uma beleza escondida no momento: as suas mãos entrelaçadas, o olhar doce do marido para a esposa, o sorriso despreocupado de ambos, o amor que se manteve o mesmo após todos estes anos... No dia a seguir, o casal estava lá, novamente, uma nova história, uma nova risada, uma nova memória...
Seria assim por muitos anos, o velho casal, isolado na sua rotina, perdido na confusão, repousando no irritante banco vermelho, na realidade, o banco deixou de ser irritante, passou a ser o lar destes breves momentos, e eu aprendi a contentar-me com isso, demorou bastante tempo, mas consegui. Tomei como dado adquirido encontrar sempre ali aquele casal, mas chegou o dia onde ele não estava lá, nem no dia a seguir, nem no outro... Apesar de muita coisa ainda ser estranha para mim, a súbita ausência do casal, não se demonstrou um grande enigma, tinham partido deste mundo. Sentia uma amargura na minha boca. Apesar de saber que tal era inevitável, não estava pronta para tal, o meu único reconforto era a ideia de que partiram num mundo colorido pelo amor deles, e isso provocava-me a mais doce melancolia.
Voltar a ver o banco vazio, partiu-me o espírito, os doces risos que antes detestara, agora faziam-me imensa falta, e aquele banco era a minha última recordação daquelas doces pessoas. Era como uma polaroid, que se ia eventualmente desvanecer, mas que ainda assim, era o último pedaço físico da sua existência. Nunca escaparam da minha mente, a minha primeira forma de conhecer o que era amar alguém genuinamente. O banco ficou vazio durante um longo inverno, seguido de uma longa primavera. No primeiro dia de verão, um jovem casal e a sua filha recém-nascida sentaram-se naquele mesmo banco, e soube no fundo do meu coração que seria o início de uma nova história, repleta de amor, risos, lágrimas e reviravoltas. Hoje, já não olho para o banco com ódio. Hoje, sei que é um ponto de partida para muitas aventuras e histórias complicadas. Hoje, percebo que apesar de platonicamente eu e aquele banco somos amigos, e agradeço-lhe por todo o amor que cria, e que espalha.
Uma andorinha deambuladora
Finalmente, decidi abandonar a minha dedicação àquele pequeno pedaço de humanidade, mas, enquanto me virava, deparei-me com ele. O que seria? Ou melhor para que seria? Um banco de jardim?! No meio dos canteiros da Dona Lurdes?! Pintado de vermelho?!
Era o objeto mais revoltante que eu ja vira! Fazia crescer dentro de mim um sorriso, mas eu não queria sorrir. Esta felicidade forçada era sufocante, como se me tirassem o direito de puder estar emburrada e revoltada com o mundo. Não gostava do banco. Tornei-me a sua arqui-inimiga no segundo em que o vi, este protesto de felicidade e inconsciência no meio da praça era algo que eu não podia suportar. Ocorria-me agora a quantidade de pessoas se iriam sentar ali e cuscar acerca da vida dos outros, ou rir-se das maiores incoerências do universo, não suportava, a revolta crescia dentro de mim, e finalmente o meu consciente estava preparado, para a batalha que seria odiar com cada célula no meu ser aquele banco.
Todos os dias eu passava, e todos os dias eu olhava com desprezo para o objeto infernal, sempre vazio, mas com um certo escárnio na sua forma, eu encarava-o e ele encarava-me, como se ambos soubéssemos que só um de nós poderia ficar, e ele já sentia a sua vitória. Ao fim de algum tempo, o ódio e o rancor pelo o objeto assentou dentro de mim, apesar de estar ainda presente, aprendera a moderá-lo da melhor forma que conhecia. Até que aconteceu, ao fim de algumas semanas, vi pela primeira vez alguém sentado no maldito banco. Um casal de idosos dava as mãos despreocupadamente. Ela divagava sobre uma colega sua que finalmente tocara a sua reforma francesa. Ele não ouvia, estava preso e encurralado nos seus pensamentos, mas mantinha um sorriso caloroso na sua cara. Havia uma beleza escondida no momento: as suas mãos entrelaçadas, o olhar doce do marido para a esposa, o sorriso despreocupado de ambos, o amor que se manteve o mesmo após todos estes anos... No dia a seguir, o casal estava lá, novamente, uma nova história, uma nova risada, uma nova memória...
Seria assim por muitos anos, o velho casal, isolado na sua rotina, perdido na confusão, repousando no irritante banco vermelho, na realidade, o banco deixou de ser irritante, passou a ser o lar destes breves momentos, e eu aprendi a contentar-me com isso, demorou bastante tempo, mas consegui. Tomei como dado adquirido encontrar sempre ali aquele casal, mas chegou o dia onde ele não estava lá, nem no dia a seguir, nem no outro... Apesar de muita coisa ainda ser estranha para mim, a súbita ausência do casal, não se demonstrou um grande enigma, tinham partido deste mundo. Sentia uma amargura na minha boca. Apesar de saber que tal era inevitável, não estava pronta para tal, o meu único reconforto era a ideia de que partiram num mundo colorido pelo amor deles, e isso provocava-me a mais doce melancolia.
Voltar a ver o banco vazio, partiu-me o espírito, os doces risos que antes detestara, agora faziam-me imensa falta, e aquele banco era a minha última recordação daquelas doces pessoas. Era como uma polaroid, que se ia eventualmente desvanecer, mas que ainda assim, era o último pedaço físico da sua existência. Nunca escaparam da minha mente, a minha primeira forma de conhecer o que era amar alguém genuinamente. O banco ficou vazio durante um longo inverno, seguido de uma longa primavera. No primeiro dia de verão, um jovem casal e a sua filha recém-nascida sentaram-se naquele mesmo banco, e soube no fundo do meu coração que seria o início de uma nova história, repleta de amor, risos, lágrimas e reviravoltas. Hoje, já não olho para o banco com ódio. Hoje, sei que é um ponto de partida para muitas aventuras e histórias complicadas. Hoje, percebo que apesar de platonicamente eu e aquele banco somos amigos, e agradeço-lhe por todo o amor que cria, e que espalha.
Uma andorinha deambuladora
Ouvir histórias destas fazem o dia de qualquer um ?!?!? Mal posso esperar por mais uma que me venha encher a alma ❤
ResponderEliminarObrigada, são as pequenas coisas que fazem a diferença, não precisa de ser uma narrativa complicada, nem uma linguagem eloquente, o que importa é o sentimento. Mal posso esperar para que leias a próxima. ❤️
Eliminar