Pequena gotinha que escorres

  Era uma triste tarde de chuva, e Matilde estava, já há algumas horas, trancada no seu quarto. Nestes dias, sair de casa era impensável. A ideia horrorosa de molhar as suas roupas, ou sequer o seu cabelo de trigo, fazia estremecer a sua alma irreverente. Por outro lado, a ideia se trancar numa versão mais cómoda e familiar do "Fort Knox" também não lhe parecia uma alternativa merecedora de uma medalha. Dias como estes, para ela, resumiam-se a longas horas de espera pelos pais, a ler um livro, ou a dar voltas em torno do seu sofá, enquanto imaginava trinta mil cenários fantasiosos que nunca aconteceriam, ao som da sua banda sonora, do momento. Mas hoje era diferente, os seus ânimos estavam em baixo, sentia-se cansada e derrotada. A sua apresentação na escola tinha sido um fracasso, tinha umas quantas zangas por resolver, e tinha quase certeza que se lhe perguntassem mais uma vez o que queria estudar na faculdade, iria certamente inundar o resto do apartamento. Divagou mais uns segundos, pensou sobre assuntos triviais, outros nem tanto, e acabou por se sentar no parapeito da janela. Num dia de sol, era sem dúvida uma bela vista para a bela cidade onde vivia, mas hoje a janela estava manchada pelas pequenas gotinhas que insistiam em escorrer. Por um momento, imaginou onde já teriam estado, imaginou aquelas gotas a viajar o mundo, a ver o que muitos não podiam, as belas paisagens e pessoas do mundo, os monumentos, os animais e o decorrer inexorável da vida neste pequeno globo.
 Rapidamente, desitiu desta tarefa. Era inútil continuar ali, na esperança que a sua situação mudasse. Eram sete e meia da tarde, tinha de preparar o jantar, apesar da fome não ser muita, ainda havia a necessidade de preencher a mesa , quando acabou eram oito e meia da noite. 
 Pôs a mesa como de costume, três lugares, cada lugar para um membro da família. Sentou-se na mesa, mas sabia que os seus pais não iriam chegar, não agora, não daqui a cinco minutos, não daqui a meia hora, nem nunca. Era uma realidade que evitava já há alguns meses. O apartamento ainda transbordava com a sua essência, lembrava-se de construir tendas na sala com o seu pai, de tentar fazer um quadro para o corredor com a sua mãe, lembrava-se dos risos de histeria quando apanhavam aquele programa de comédia que todos gostavam a passar na televisão, ou aquela vez onde tentaram jogar ténis dentro de casa. Era uma perseguição constante das memórias que pretendia esquecer, mesmo que por algumas horas. Desde a morte dos seus pais, Matilde tem criado confusões com todos os colegas na sua escola, deixou de estudar e responde mal aos professores, tem também deixado de comer, começou a beber e a fumar um pouco mais do que devia, as saídas à noite começaram também a aumentar, exponencialmente. Mas hoje não. Por alguma razão a sua mãe não lhe saía da mente. Era uma mulher brilhante, a mãe da Matilde, sabia sempre o que dizer no momento certo, era sábia, inteligente e perspicaz, o que lhe valeu imenso, enquanto jornalista. No dia do seu funeral estavam pelos menos uma dúzia de colegas seus, era muito respeitada no seu ramo. Não parava de pensar no que lhe diria se a visse naquele estado, certamente seria castigada após um bom sermão de hora e meia. Uma frase em particular não lhe escapava da mente : " As nossas lágrimas são as pequenas gotas teimosas que nos escorrem a alma da tristeza que carregamos connosco.". Disse-lhe esta frase depois de terem dito a Matilde que chorar não iria resolver os problemas dela. Matilde não se lembra do problema, só do olhar carinhoso da sua mãe, e do seu cheiro a conforto. Na realidade, após o acidente de carro Matilde não se lembra de muita coisa, por agora não sabe se é de propósito ou não, custa-lhe respirar e fazer as tarefas básicas do dia-a-dia. A raiva e a tristeza consomem-na na maior parte do tempo, mas não há ninguém que a possa ouvir, nem ninguém de quem se possa vingar, no final de contas, Deus ainda não abriu uma caixa postal. Então eram assim todos os seus dias, zangada triste e ressentida, caía na mesma rotina agonizante, e nunca passava além disso.
 Quando terminou o seu jantar regressou ao parapeito da janela, e viu que uma gotinha que seguia junta com as restantes tinha sido brutalmente separada da sua massa de água, mas a gotinha não parou de caminhar, seguiu em frente, prosseguiu o seu percurso, e terminou a sua missão. Pela primeira vez em algum tempo Matilde sorriu verdadeiramente, e pensou no quão ridiculo era achar sequer que a pequena gota tivesse alguma influência no seu percurso, mas ainda assim desbotou dentro de si um pequeno raio de fé, e prometeu a si mesma, que apesar de não saber o que o dia de amanhã traria, que o viveria da melhor forma possível, em honra dos seus pais.
 Anos foram passando, mas a nossa Matilde manteve-se sempre firme à sua promessa, viveu e vive uma vida cheia de aventuras, tornou-se jornalista como a mãe, mas mantém o seu interesse pela História vivo, em honra do pai. Foi responsável por muitos artigos e notícias que mudaram o panorama político e social do seu tempo, e cada vez que a tristeza a abraça ela lembra-se sempre do amor dos seus pais e como eles a apoiavam, incondicionalmente. Agora digita as últimas palavras do seu novo artigo e desliga o seu computador, está a caminho de casa, onde o seu marido e os seus filhos a esperam para construirem a sua tenda, para acamparem num dia chuvoso, no conforto do seu lar.


Uma andorinha deambuladora



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