Brincar aos Crescidos
Havia um pequeno infantário, no final do longo pomar onde nascera, um pequeno infantário caiado de branco, e com varandas pintadas de amarelo de Verão, aquele amarelo tão vivo, cujo calor até as mais dormentes almas aquece. Costumava estar repleto de risadas, as mais belas, puras e inocentes, como é uma criança. O ar estava repleto de doçura e perguntas genuínas, como nasciam as árvores, de onde vinha a água que caía gotinha a gotinha do céu, de que cor era a amizade e se todas as estrelas do céu brilhavam só para nós. Era o último poço de alegria e esperança naquela urbanização sufocante e enfadonha. Era como se Deus, após pintar um quadro a preto e branco, tivesse sido tão comovido pelo desespero e tristeza das aquelas aragens, que não pôde resistir a juntar uma só gota de cor que, por ser só uma, se revelava tão marcante e tão memorável. Ainda hoje me lembro, das correrias e brincadeiras que a pequena Isilda costumava fazer no pátio de calçada, ou todas as vezes em que o Pedro se recusou a comer o lanche, e mesmo quando a Patrícia chorava porque tinha ferido o seu joelho. Ah sim, tudo belas memórias das minhas recatas observações! Agradeço por me terem dado boa memória porque, quando passado uns anos retornei ao infantário, já nada me parecera o mesmo.
O edifício continuava lá, de pé, o seu branco tinha escurecido com o passar dos anos, também ele chorava o seu declínio, as varandas amarelas já não me sorriam como dantes e a bela calçada, parecia cansada e consciencializada do seu fim. O que nunca ninguém nos conta, nem as brisas sábias de Este, é que as crianças movem o mundo, o seu charme e a sua inocência, são a mais pura da bondade que existe, sem elas não éramos nada, não teríamos ninguém a quem contar todas as nossas aventuras nem a quem transmitir o nosso, por vezes, pouco e redundante, conhecimento. A essência da criança é também ela a essência do mundo e do que ele pode vir a ser. Nada mais prova isso do que o agora miserável infantário, onde nos seus corredores abandonados se ouve o pequeno murmúrio de lamento e pesar do fim da era dourada. A situação não me chocava, todos nós olhamos para a nossa infância com algum embaraço e, queremos desesperadamente ver-mo-nos livre dela, como uma camisola desconfortável que a nossa avó nos ofereceu no Natal, e tal como esta, a nossa infância acaba escondida numa caixa de arrumação, no sótão. Não pude evitar sorrir com a melancolia, saber que não haveriam mais arraiais, ou meninas que usariam brincos de cerejas maduras, mas haveria unicamente silêncio e vazio. Soube pelo doce vento que a Patrícia era agora médica, algures nas grandes cidades cosmopolitas, a Isilda tinha casado com um viajante, e que desfrutava agora das belezas do antigo Cairo, por fim, o Pedro era engenheiro informático, a profissão do futuro, dizia ele.
Todos tão crescidos, a fazerem o que tanto queriam, o que tanto trabalharam e o que tanto sacrificaram. Quando brincamos aos crescidos somos ambiciosos, sonhadores e ousados, porque só no nosso mundo poderíamos ser reparadores de avionetas e viver nas nuvens. O pior da infância é ter de crescer, e uma pequena parte da nossa alma, sonho e bondade ficar escondida nos labirintos da mente. Porque o pior de se brincar aos crescidos é um dia ser crescido.
Uma andorinha deambuladora
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